terça-feira, 14 de abril de 2015

A NOSSA "AURORA"

A NOSSA “AURORA”
No conto “Aurora sem dia” o nosso Machado de Assis exercita uma crítica deveras irônica àqueles que se julgam sábios mas que desprezam o estudo e a aprendizagem. O personagem principal, Luiz Tinoco, se julga um grande poeta na primeira parte da história, e na segunda julga-se um grande orador da política. Em ambos os projetos ele despreza a leitura tanto dos grandes poetas como dos grandes oradores. Sua desculpa é que ele possui o “dom” para uma e outra. Ele não precisa aprender, pois já sabe. O objetivo de Machado é claro: ao mostrar como o sujeito se dá mal em ambos os projetos ele ridiculariza aqueles que não pesquisam, não se informam e que usam a desculpa do “dom” para ocultar a própria preguiça intelectual.
Se haviam casos deste tipo na época de Machado, em nossos dias eles se tornaram o lugar comum. Gente que acha que pode criar sem precisar passar por um processo de aprendizagem é o que mais se tem por ai. Jovens querem escrever, fazer vídeos, fazer stand up comedy e, o que é pior, intervir em debates sobre temas sérios, sem ler nada sobre tais assuntos ou quaisquer outros. Com a facilidade técnica que temos hoje (acesso à internet, câmeras para filmagem, blogs para escrever, facilidade para divulgar trabalhos, etc.) um grande número de pessoas quer mostrar trabalhos em diversas áreas, mas se recusam a passar pelo necessário processo de aprendizagem. Este processo não inclui apenas a leitura de livros, claro, mas não acontece sem ele.
Em parte a culpa disso pertence ao “culto à técnica”. A técnica no sentido de tecnologia disponível (“domino bem os recursos tecnológicos ao meu dispor, logo, sou bom para trabalhar com arte”). E a criatividade? “Bem, eu tenho o dom e isso é o bastante”. Para estas  pessoas, recordando um velho debate dos anos sessenta, “as ideias caem do céu”, ou “são  inatas da própria mente”.
Um outro fator é a ilusão de que os gênios (de qualquer área) são dotados de um “dom” especial. Para estas pessoas ingênuas Hendrix não passou anos estudando guitarra e nem o próprio Machado de Assis leu vários livros para desenvolver seu intelecto literário criativo. Estes e outros que se destacaram na literatura e em outras formas de arte teriam sua criatividade inata, pronta, sem passar por um processo de desenvolvimento.
A queda nos níveis de leitura só poderia dar nisso. O tempo em que vivemos assiste à expansão da imagem e não é raro alguém argumentar que “não preciso ler livros, já assisto filmes”. É evidente que assistir filmes, palestras, peças teatrais, escutar boa música, etc., tudo isso contribui para a formação cultural do indivíduo. Mas é a leitura que mais mexe com a imaginação. O texto escrito força sua mente a imaginar personagens, possíveis desdobramentos para o texto lido, repulsa, paixão, imaginar finais alternativos, etc. Em um filme é possível ter algumas destas sensações, mas não todas e nem na mesma intensidade de um texto lido. A visualização de cenas e personagens em um filme é imediata, algo já construído. Você é apenas um receptor passivo deles. A leitura desenvolve mais a imaginação criativa, um pressuposto básico para qualquer forma de arte.
Mas não falemos apenas de arte, não nos esqueçamos das opiniões. No admirável mundo novo das redes sociais expandiu-se o terreno propício para dar opiniões sobre qualquer assunto. Com base em quê? Com base em outras opiniões ditas por outras pessoas nas mesmas redes sociais... É evidente que o número excessivo de participantes das redes sociais inclui gente culta e de bom nível de leitura, mas estas pessoas são exceções. As massas estão nas redes sociais. A internet democratizou a participação popular em debates públicos. Algo a se comemorar, mas também para ser visto com cautela, pois as opiniões rasteiras e simplistas em número excessivo esmagam opiniões bem fundamentadas. Como o simplismo é mais fácil de ser apreendido, ele leva uma larga vantagem. Nas redes sociais surgiu o que podemos chamar de “intelectual de facebook”, aquele que repete as informações que lhe interessam com muita convicção e pouco discernimento e avaliação crítica. Nas redes sociais impera a ditadura do chavão: “vai pra cuba”, “você é coxinha”, você é petralha”, “a culpa é do FHC”, “a culpa é do Lula”, etc., a lista seria grande demais. “Para quê ler livros se posso repetir chavões na internet?” Se vivesse nos dias de hoje  Machado de Assis teria material suficiente para escrever outros contos irônicos. A internet seria uma fonte inesgotável para ele.
Voltando ao debate sobre a criatividade artística, podemos afirmar que uma das consequências da falta de pesquisa, leitura e estudo é a expansão do plágio. As fórmulas já prontas são reutilizadas e, muitas vezes, sem sequer se dar ao trabalho de ao menos disfarçá-las. O declínio da criatividade é sempre acompanhado da repetição infinita de fórmulas já testadas. Claro que os menos criativos tendem sempre a copiar aquilo que vende mais. Após o extraordinário sucesso de “O senhor dos anéis” vimos surgir uma séria infinita de autores com histórias na mesma linha alimentando as indústrias cinematográfica e editorial. Se não são plágios no sentido próprio da palavra, não se pode negar que seu objetivo é “pegar o bonde andando” do sucesso da obra de Tolkien aproveitando uma fórmula que já deu certo. Devemos admitir que o desejo de fama e fortuna rápida também contribui para isso. Não se trata apenas de falta de criatividade...
O culto à tecnologia, o declínio da leitura e o plágio como consequência poderão causar a decadência da cultura em nosso tempo? Aliado a isso tudo acrescentamos o desejo de fama (e de riqueza) rápida e teremos um universo de títulos literários e artísticos com capas diferentes (quando muito) e conteúdos semelhantes. Se vivesse nos dias de hoje o Luiz Tinoco faria muito sucesso.

Aristóteles Lima Santana, 10/03/2015

sábado, 13 de dezembro de 2014

AS OPÇÕES DE DILMA E AÉCIO

AS OPÇÕES DE DILMA E AÉCIO
Terminou a eleição presidencial, um dos postulantes ao cargo ganhou e irá tomar posse, mas o clima de campanha teima em continuar. O fato da diferença entre Dilma e Aécio ter sido pequena deixou o candidato do PSDB (e alguns dos seus eleitores) inconformado. Depois de ter descartado aliar-se à extrema-direita, o próprio Aécio de forma provocativa fez um vídeo conclamando e apoiando uma marcha contra Dilma. Pouca gente apareceu e ele mesmo  preferiu ir à praia com a família. Este episódio patético é só uma demonstração de que o PSDB flerta com a irresponsabilidade. Com a bancada forte que elegeu este partido pode fazer uma oposição responsável no Congresso. Aécio saiu-se fortalecido como liderança do pleito. Ele não precisa fazer papel de palhaço (como fez neste episódio) para aparecer. A continuar assim seu nome sofrerá desgastes irrecuperáveis.
O governo Dilma virou à direita? Grande novidade. Todos os governos do PT viraram à direita na gestão econômica. O susto com as possíveis nomeações de Kátia Abreu e Joaquim Levy são encenações tolas. Gente pior ou igual a eles já estiveram governando ao lado de Lula. O PT está fazendo o que sempre fez: um governo medíocre que administra a crise a favor do grande capital enquanto distribui migalhas aos pobres. Nada de novo no front.
O caso dos escândalos da Petrobrás ainda toma conta do noticiário nacional. Uma pedra no sapato do governo. Mas os governos do PSDB também estão atolados com denúncias de corrupção. Ambos os partidos, PT e PSDB, estão sofrendo diariamente desgastes consideráveis (e merecidamente). A ideia de que a democracia brasileira vai dividir-se entre estes dois partidos eternamente é uma falácia. Existe um caminho aberto para o crescimento de outras opções. Aliás, muito se falou de uma onda conservadora nas eleições, mas o PSOL dobrou sua votação em nível nacional.
Muito tem se falado de um impeachment de Dilma. Isso é possível? Sim, mas pouco provável. O governo tem folga na Câmara e no Senado. Recentemente houve um golpe constitucional no Paraguai. Usando o Congresso, a direita conseguiu derrubar um presidente progressista lá. O exemplo paraguaio parece encantar uma parte da oposição. O governo que fique atento. Esta é uma opção que o PSDB não vai descartar tão cedo.
A opção de Dilma em virar à direita também deve ser entendida como uma forma de garantir apoio no Congresso. As bancadas conservadoras (ruralista, evangélica, etc) cresceram e ela terá de atender a estes setores para garantir a maioria. O PT, na verdade, foi derrotado no Congresso. O caso de Pernambuco é ilustrativo: nenhum federal do PT foi eleito. O PT perdeu dezoito vagas no Congresso para outros partidos. A nomeação da Kátia Abreu (que, entre outras vilanias, quer rever o conceito de trabalho escravo para favorecer seus amigos latifundiários) é para agradar a bancada ruralista. Antes tínhamos a ala desenvolvimentista do governo, a ala reformista, outra ala social-democrata, etc. Agora Kátia Abreu liderará a ala escravocrata do governo. Para quem acha isso péssimo vai um aviso: não vai parar por ai, outros vilões serão atendidos. Tudo em nome da governabilidade.

Aristóteles Lima Santana, 13/12/2014

domingo, 30 de novembro de 2014

THOMAZ WOOD JR. COMENTA SOBRE MENTIRAS E ESTATÍSTICAS

Sobre mentiras e estatísticas
A influência do consumo de margarina na taxa de divórcios do estado do Maine e outras correlações espúrias
por Thomaz Wood Jr. — 
Benjamin Disraeli, o Conde de Beaconsfield, serviu dois termos como primeiro-ministro da Grã-Bretanha, no século XIX. Entre outras pérolas, a ele é atribuída a frase: “Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras terríveis e estatísticas”. Consta que o chistoso dito teria sido popularizado nos Estados Unidos pelo escritor Mark Twain. Alguns o atribuem ao próprio Twain. A popularidade da frase atravessou séculos, a alimentar nossa desconfiança dos números ou, mais precisamente, do seu uso impróprio para respaldar argumentos vazios ou duvidosos.
Tyler Vigen é um agitado estudante de Direito em Harvard. Não se sabe se é fã de Disraeli ou de Twain, mas parece ter se apoiado sobre os ombros dos dois gigantes. Vigen criou um website, Spurious Correlations, com o propósito de se divertir com estatísticas falaciosas e correlações ilegítimas. O próprio criador adverte não se tratar de fomento à descrença na ciência, mas de separar relações causais de coincidências e simples manipulações.
Vigen usa um dos métodos mais disseminados da estatística, o teste de correlação. Na análise de dados americanos, ele descobriu uma correspondência quase perfeita entre os gastos com ciência, espaço e tecnologia e o número de suicídios por enforcamento, estrangulamento e sufocação. A Nasa deve estar preocupada! Outro elo fortíssimo foi descoberto entre o consumo de margarina e a taxa de divórcios no estado do Maine. A substituição por manteiga ajudaria os casais? Ainda no campo da alimentação, foi constatada uma ligação entre o consumo per capita de muçarela e o número de doutorados em engenharia civil. Será responsabilidade das pizzas? Já o número de filmes nos quais Nicolas Cage atua apresenta associação razoável com o número de pessoas que morrem afogadas ao cair na piscina. Culpa do ator ou da qualidade dos filmes?
Qual é o truque? É simples, a ocorrência de uma correlação, mesmo forte, sugere, mas não significa uma relação de causa e efeito entre as variáveis. De fato, pode não existir relação alguma. Esse simples preceito, exposto de forma bem-humorada por Vigen, não parece sensibilizar debatedores e argumentadores balizados unicamente em sua própria opinião e na vontade de convencer incautos suscetíveis a fantasias numéricas. Entretanto, as implicações de estripulias estatísticas podem ser sérias. Correlações espúrias frequentemente mudam percepções sobre questões relevantes, influenciam decisões e podem levar a alterar políticas públicas, afetando diretamente a vida dos cidadãos.
A ciência estatística teve origem no século XVII, com as contribuições notáveis dos franceses Blaise Pascal e Pierre de Fermat. Transformou-se em profissão e em um campo científico marcado pelo rigor dos métodos e das análises. No século XX, a estatística avançou nas linhas de montagem e nas agências de propaganda, ganhou adoradores entre engenheiros e economistas. Tornou-se onipresente na academia, na vida cotidiana e na mídia. Parte considerável do progresso científico está sustentada pela estatística, por técnicas que permitem analisar e testar correlações. Sintomaticamente, muitos artigos científicos das ciências humanas, exatas e biomédicas parecem textos matemáticos, inundados por hipóteses, fórmulas e tabelas.
Juntamente com virtudes vieram alguns vícios. Estudantes de doutorado logo aprendem a “torturar os números”, para “confessarem” os resultados esperados. Técnicas de “engenharia reversa” são frequentemente utilizadas. Primeiro, se estabelecem os resultados e, depois, os meios para chegar a eles. Manipulações grosseiras são denunciadas, mas outras, mais sutis, podem passar despercebidas.
Alguns resultados transcendem a academia e são filtrados, reembalados e, vez por outra, distorcidos pelas mídias de massa. Uma causa provável, aplicada a uma amostra restrita, pode, pela força de uma manchete, tornar-se verdade absoluta e influenciar opiniões e comportamentos. O uso espúrio da estatística provavelmente faria Disraeli e Twain contraírem cinicamente a sobrancelha esquerda, ou a direita, ou ambas. Mas essa correlação é de difícil comprovação.
FONTE: site de Carta Capital.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

SOBRE AS ELEIÇÕES 2014

ELEIÇÕES 2014
Como será conhecido no futuro o resultado das eleições de 2014? A “eleição do ódio” é um forte título, mas a “mais disputada” pode ser um que muitos prefiram. Ambas as alternativas contemplam a perspectiva de observação de muitas pessoas. Não sei como será daqui em diante, mas já aconteceram duas passeatas pós-eleitorais. Algo nunca acontecido antes. A direita saiu em São Paulo pedindo golpe militar ou impeachment sobre Dilma e, alguns dias depois, uma parcela da esquerda deu uma resposta com outra passeata com slogans socialistas. Nas redes sociais os debates (e combates) sobre as eleições continuam e, da direita à esquerda, destila-se um ideologismo barato sem muita consistência, mas propagador de uma boa dose de confusões.
Por falar em redes sociais, podemos concluir que o resultado apertado favorável a Dilma só foi conseguido graças a elas. Milhões de eleitores viraram militantes on-line. Claro que isso aconteceu com todas as forças políticas envolvidas na disputa, mas os que apoiavam o PT esforçaram-se mais. Sem ter espaço na grande mídia, usaram a pequena mídia com muito mais intensidade. O apoio de uma direita ressentida, agressiva, racista e golpista dado abertamente nas redes sociais ao candidato do PSDB assustou cidadãos e militantes no Brasil inteiro. O próprio Aécio Neves em entrevista recente (pós-eleitoral) declarou: “não ser de direita”, tentando desvencilhar-se de Bolsonaro e seus seguidores fanáticos.
Sobre Aécio Neves pode-se afirmar que ele é um dos grandes vencedores do pleito, mesmo com sua dupla derrota em Minas Gerais. Excetuando-se FHC, ele foi o candidato do PSDB que foi mais longe em uma disputa com o PT pela presidência. E olha que sua candidatura tinha tudo para naufragar. O escândalo que envolveu seu amigo, o senador Perrela, com um helicóptero cheio de cocaína, seria suficiente para abalar suas pretensões. Ele ainda teve de enfrentar a possibilidade de não ir para o segundo turno com o fenômeno Marina, surgido logo após a morte de Eduardo Campos.
No Congresso o resultado foi paradoxal. Em termos numéricos o governo tem maioria: 304 dos 513 deputados federais eleitos são da base aliada e 53 dos 81 senadores também. Mas em termos programáticos o Congresso piorou. Aumentaram as bancadas conservadoras (ruralistas, evangélicos, bancada "da bala”, etc), ou seja, grupos avessos aos movimentos sociais e a todas as bandeiras progressistas. Tais grupos possuem aversão ao PT e foram seus seguidores que organizaram a marcha pedindo um novo golpe militar. É bom não esquecer que por “base aliada” entenda-se uma miríade de grupos que incluem conservadores e oportunistas de plantão, que só estão lá porque possuem cargos e influência no governo. O relacionamento com o Congresso talvez seja tumultuado, mesmo o governo tendo maioria. Mas o governo tem fôlego, é bom lembrar que uma parcela da oposição também pode ser comprada com cargos...
Não é difícil explicar o porquê desta eleição ter sido tão acirrada. Um clima de “mudancismo” provocado pelas rebeliões do ano passado aliado ao denuncismo midiático espetacularizado; um desgaste natural de um partido que acumula doze anos no poder e um novo conceito de militância nas redes sociais (por parte da oposição também) foram suficientes para ameaçar o PT. Todo esse acirramento levou a que muitos refletissem sobre um Brasil que teria saído dividido após as eleições. Mas o Brasil sempre foi dividido. Essa divisão desperta e mostra-se em alguns momentos históricos, mas ela é permanente. E não poderia ser diferente em um país cheio de contradições e com uma concentração alta de renda e poder.
Aristóteles Lima Santana, 17/11/2014.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

COMPLEXO DE VIRA-LATAS

O COMPLEXO DE VIRA-LATAS
Durante a Copa do Mundo falou-se muito do complexo de vira-latas por causa das críticas à organização deste evento esportivo. A expressão foi criada por Nelson Rodrigues justamente em referência ao desastre da derrota na final de 1950, ou seja, da primeira copa organizada no Brasil. Após a derrota contra o Uruguai, os brasileiros haviam ficado, segundo Nelson, com complexo de inferioridade achando que nada daria certo em nosso país, nem mesmo Copa do mundo. Pobre Nelson, ele não poderia imaginar que uma catástrofe maior aconteceria em 2014 perante a Alemanha...
Embora o Nelson Rodrigues tenha criado esta expressão após 1950, a origem do problema é bem anterior. Ela vem da colonização e tornou-se tema de debates após a independência. A elite branca de origem portuguesa gostava de possuir negros escravos, mas detestava o fato óbvio de que durante a colonização houve um processo de miscigenação da população. A mistura racial foi mal vista desde o início e para este mal estar contribuíram muitos pensadores europeus e brasileiros. Quem iniciou a quebra deste paradigma foi Gilberto Freire, cujo trabalho consistiu justamente em realçar a miscigenação. Mesmo que o conceito equivocado de “democracia racial” seja uma consequência de suas teorias, ainda assim sua contribuição foi um choque para aqueles que defendiam o ideal de “raça pura”.
Assim, o tal complexo de vira-latas, a ideia de que no Brasil nada dará certo, vem deste mal estar que a elite brasileira sentia com a mistura de raças. Aliado a isso veio o deslumbre com a modernidade europeia e norte-americana. O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo fez de algumas nações peças centrais da modernidade e o resto ficou como “periferia”. A noção de que pertencemos à periferia afetou ainda mais a autoestima da elite brasileira. Aumentou a admiração e o desejo de imitar a elite destas regiões centrais. Embora hoje tenhamos consciência de que aprender línguas estrangeiras é fundamental para o crescimento cultural do indivíduo, por proporcionar que ele tenha acesso a uma variedade maior de informações, não foi por este motivo que nossa elite (notadamente a carioca) aprendeu o francês no século XIX. Foi mais por esnobismo e imitação barata do estrangeiro, embora tenham existido também honrosas exceções.
Mas este complexo de vira-latas não se desenvolveu sem contradições. Seria possível existir um ódio puro ao país ao qual se pertence? É bom lembrar que este fenômeno se desenvolve paralelo à formação do Estado nacional e seu correlato ideológico que é o nacionalismo. O romance “Gracias por el fuego”, do escritor uruguaio Mario Benedetti, em seu primeiro capítulo explora um pouco e escancara esta contradição. Quinze uruguaios, homens e mulheres, todos pertencentes às famílias mais ricas do Uruguai, encontram-se em um restaurante  em uma grande cidade norte-americana. Entre apresentações e flertes surge nas conversas  comparações entre o Uruguai e os EUA. O deslumbre com a nação estadunidense destaca-se ao lado do descrédito com a nação sul-americana de origem. Uma senhora chega a declarar que tem “vergonha de ser uruguaia”. Um deles levanta-se e vai atender a um telefonema. Ao voltar completamente transtornado e abatido narra que uma catástrofe de proporção gigantesca atingiu o Uruguai. O país foi atingido por um maremoto seguido de chuvas torrenciais que causaram uma inundação de proporções diluvianas. O país estava todo destruído, inundado e com milhares de mortos.
Só um narrador como Benedetti conseguiria descrever uma mudança tão extraordinária no tom da conversa. De desprezo pelo Uruguai surgem de forma súbita o apego e o amor pela pátria e por seu povo. Os supostos cosmopolitas tornam-se provincianos apaixonados pela terra natal. O que o autor uruguaio demonstra é que no fundo o complexo de vira-latas não passa de uma máscara ideológica para ocultar o provincianismo da elite. Encantada com a modernidade dos países centrais ela tenta vestir uma roupa que lhe interessa, mas que não lhe cabe...
A Globalização, tão decantada em verso e prosa pela elite brasileira e mundial, trouxe a ilusão de que valores culturais nacionais estariam em decadência e de que finalmente havia chegado o tempo do cosmopolitismo universal. Mas hoje um dos fenômenos das contradições desta mesma globalização é justamente um fortalecimento de valores culturais nacionais, na maior parte das vezes com viés conservador nacionalista ou religioso. Podemos concluir que há uma tendência de aumento do provincianismo em vastas camadas da população mundial. Isso fará com que aumente o fosso da distância destas massas com as elites que, apegadas à sua máscara de modernidade neoliberal, tenderão a se tornarem mais ainda presas ao complexo de vira-latas.

Aristóteles lima Santana, 16/09/2014.

terça-feira, 22 de julho de 2014

TRANSPARÊNCIA TOTAL

TRANSPARÊNCIA TOTAL
Em maio deste ano um cidadão espanhol venceu um processo na Corte Europeia de Justiça. A sentença deu a ele o direito de desaparecer do Google. Sim, tudo e todos estão nele. Seu nome, endereço, CPF, preferências pessoais, seu estilo de se vestir, etc. Aquilo que não estiver nas buscas do Google, poderá ser encontrado no Facebook, no Twitter ou no finado Orkut. Abra seu e-mail e veja que tem empresas mandando notícias sobre lançamentos de seus produtos, mas você não se lembra de ter mandado seus dados para elas e nem solicitado receber as novidades. Como elas souberam o seu e-mail?
Existe um tráfico imenso de dados e informações na Net e isso inclui dados sobre você. Dê sua opinião em um blog sobre qualquer assunto. Quando digitarem seu nome no Google aquele blog aparecerá com um indicativo de que você escreveu nele. Existe inclusive um serviço online chamado “disqus” que registra vários comentários feitos por você em blogs e sites. É a transparência total. Tudo sobre você está exposto aos olhos de todo o planeta.
E antes que você reclame de qualquer coisa saiba que a culpa é, em parte, sua também. Você coloca nas redes sociais fotos de onde esteve (ou está), o que comeu, hora, data e local de onde esteve ou estará, etc., (as redes sociais são excelentes guias para os sequestradores modernos). Existe, evidentemente, uma contradição ética entre pessoas que exigem direito à privacidade e vivem se expondo... Ou, o que é mais provável, estamos refazendo o conceito de privacidade e permitindo uma vigilância maior sobre nós. Sim, você pensa que é liberdade, mas estamos tratando de controle e vigilância.
Hoje é possível ter todos os seus passos monitorados com o sistema GPS. Ou seja, não só é possível saber quem é você, mas também onde você está.  Uma ditadura totalitária do futuro vai adorar o GPS, ele será a “menina dos olhos” de qualquer ditador. Ele não só terá em arquivo digital tudo sobre você, mas todos os lugares que você frequenta serão conhecidos. O sumiço recente de um avião da Malaysia Airlaines provocou consternação não só por causa do destino trágico das vítimas, mas muito mais porque ele conseguiu desaparecer em uma época em que não é possível desaparecer...
Mas, claro, você deve estar adorando toda essa vigilância. Ela permitirá perseguir e prender os criminosos com mais facilidade. E isso é bom, evidentemente. Mas isso me parece mais uma armadilha. “Não se preocupe”, dizem o Estado e as empresas privadas, “só os bandidos serão vigiados e perseguidos”. É uma visão tão tola e ingênua como a daquelas pessoas que defendem o uso da tortura e da pena de morte achando que só os bandidos serão torturados e mortos... Faça uma armadilha para pegar um pássaro específico. Ele poderá ser capturado, mas qualquer outro pássaro também poderá sê-lo. Cuidado com a armadilha “perfeita” para pegar o pássaro...
O escândalo do sistema norte-americano de vigilância na internet feito pela NSA denunciado por Eduard Snowden talvez seja apenas o início do que poderá vir. O exemplo norte-americano comprova também que esse controle não é feito apenas pelo “Estado opressor”, mas com a colaboração ativa das empresas privadas do setor de tecnologia (entre elas o Google). E se os EUA estão interessados em vigiar cidadãos do mundo inteiro saiba que os russos e chineses também o querem. Saiba também que a contrapartida não será possível. Quando Julian Assange denunciou segredos dos EUA no site Wikileaks tornou-se um pária ameaçado de morte. O mesmo vale para Eduard Snowden por ter denunciado o sistema da NSA. O “grande irmão” pode saber seus segredos, mas você não poderá saber os dele. Isso é democracia?

Aristóteles Lima Santana, 22/07/2014. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A VOLTA DAS "IDEOLOGIAS"



A VOLTA DAS "IDEOLOGIAS"
Há alguns meses atrás no Estado de São Paulo um grupo de manifestantes invadiu um laboratório químico de uma empresa privada de cosméticos. Cães de uma raça particular eram usados como cobaias por esta empresa e isso causou a reação violenta de um grupo preocupado com os pobres animais. Libertar os cães do cativeiro foi o objetivo da ação violenta do grupo. Os animais em questão são belos e nas redes sociais tornou-se popular uma piada que perguntava  porquê estas pessoas não se lembraram das cobras e ratos usados como cobaias em outras instituições... Mais intrigante ainda é que no Brasil temos centenas de trabalhadores em regime de escravidão em algumas fazendas e fábricas. Até agora não houve nenhum grupo disposto a organizar uma invasão a estes estabelecimentos para libertar estes escravos... No Facebook vários defensores dos “animaizinhos” defenderam que humanos (bandidos, corruptos, etc.) sejam usados como cobaias no lugar deles. Ou seja, defendem Aushwitz e Joseph Mengele, embora o seu nível intelectual simplório não permita perceber o que ou quem estão defendendo...
Este pequeno caso ilustra um fenômeno novo nos dias de hoje: o ressurgimento da ideologia. Quando falamos em ideologia não devemos nos reportar apenas àquelas que possuem expressão política, como fascismo, comunismo, anarquismo, liberalismo, etc., embora estas também entrem no debate em questão. Hoje o vegetarianismo e a defesa dos animais possuem características ideológicas, que são: concepção unitária de mundo, objetivo a ser conquistado, valores e ideias a serem defendidos, uma concepção teórica que orienta uma prática e, consequentemente, uma militância envolvida. Você poderá também ver estas características nos movimentos negro, gay e feminista, verá nas igrejas evangélicas e até em um curioso movimento ateísta que surgiu em nível mundial há alguns anos. As redes sociais são o campo de batalha de todos eles que, inclusive, digladiam-se entre si.
O fenômeno pode estar ligado a dois fatores: o primeiro é a procura por uma motivação não mercadológica da vida. O capitalismo anuncia que a função do indivíduo é produzir e consumir. O ideal neoliberal de homem é esse. Ter um sonho? Só se for o de comprar um carro novo; ter um objetivo na vida? Só se for o de ter um emprego mais rentável para consumir mais; ter um objetivo utópico? Esqueça; querer melhorar o mundo? Isso redundará em perda de tempo. Consuma mais e seja feliz, é o recado do capitalismo. Mas como apenas consumir não satisfaz a ânsia humana pela vida, estas pessoas procuram uma razão para sua existência que pode se manifestar em uma causa a ser defendida. O segundo fator é a crise do socialismo iniciada a partir da queda do leste europeu. Na medida em que o socialismo tem dificuldades para se colocar como alternativa real ao capitalismo restou às pessoas que querem sonhar com um mundo novo a procura por outras alternativas.
A extrema direita, que tem se manifestado nas redes sociais e, contraditoriamente, também faz parte do fenômeno, tem batido em todos estes movimentos. Aliás, um curioso livro chamado “Contra um mundo melhor” escrito por um conservador brasileiro pode ser vista como uma possível resposta a este fenômeno social. O consumismo desenfreado é defendido com unhas e dentes pelo pensamento conservador. E isso em pleno anúncio de uma possível hecatombe ecológica para a humanidade...
A tônica dos debates entre muitos destes grupos é o do sectarismo. Perdura dentro deles o espírito de seita. A negação do outro tem permeado muitos embates nas redes sociais. Ateus versus religiosos, vegetarianos versus quem come carne, extrema direita versus extrema esquerda, flamenguistas versus vascaínos, etc. Não se pode falar que permeia em vários militantes destes grupos a busca pelo conhecimento mais amplo. A função do membro de uma seita (seja ela qual for e qual seja o seu objetivo) é mergulhar ainda mais na doutrina da própria seita e tentar negar a doutrina da seita oposta. Raros são os debates construtivos e enriquecedores entre os vários grupos.
Este talvez seja o resultado lógico de um mundo onde se lê pouco e o desespero existencial faz com que a fuga do “admirável mundo novo” do consumismo se dê a partir de uma causa particular em oposição a outras causas particulares. É bom lembrar que a ideologia (qualquer uma) oferece uma visão que não abarca o todo do conhecimento humano e, inclusive, oculta diversos fatores contrários a seus princípios. Louis Althusser disse certa vez que para que Marx e Engels tivessem feito a crítica à ideologia de sua época foi preciso que se posicionassem “fora da ideologia”, ou seja, tiveram que enxergar o todo da realidade social para compreender o papel da ideologia dentro deste todo. Com o sectarismo e o espírito de seita de muitos grupos por ai, este posicionamento é uma tarefa quase impossível para muitos militantes nos dias de hoje.
Aristóteles Lima Santana, 19/02/2014.